Sobre Meditar

Na areia movediça, quanto mais você se debate, mais você afunda. Ao passo que, se parar e observar ao redor, pode encontrar uma forma de sair, um cipó, um lugar onde se apoiar...

Também podemos comparar a dificuldade de meditar à água suja e turbulenta. Os pensamentos, crenças e tal são a sujeira na água e nossa resistência em abrir mão deles é a turbulência, é o nosso debater na água. Enquanto nos debatemos, a água se mantém agitada e suja. Quando paramos de nos debater, a água acalma e a sujeira pode começar a baixar e ir para o fundo. Com isso, a água se torna mais limpa e podemos nos enxergar verdadeiramente.

Para se enxergar é preciso apenas meditar. Um mantra ajuda a trazer libertação, entrega e tal. Acho muito que o mantra serve para criar um transe, dessa maneira, com a repetição excessiva não há lugar para os pensamentos e crenças, só para as vibrações do mantra. Isso vai gerando calma e depois, quando ficamos em silêncio, podemos começar a abrir espaço para o vazio. Desse vazio surgirá a nossa verdade, poderemos começar a responder à pergunta: Quem sou eu? Quem sou eu por trás de todas essas crenças, máscaras e pensamentos? Quem sou eu por baixo dessas muitas camadas?

Essas camadas são ancestrais. São mais antigas do que nossos poucos anos de vida. Essa maleta cheia de crenças e tal que nossos pais nos passaram, foi dada a eles por seus pais, que por sua vez receberam de seus pais e assim por diante. Então, quase toda nossa visão de mundo, a maioria das coisas que aprendemos, na verdade, datam de muitos e muitos anos. É transmitido culturalmente e por isso é ancestral. Por isso tem raízes enormes, maiores do que as nossas próprias.

E porque focar no terceiro olho? Somos dotados de visão, temos dois olhos e esse é considerado por muitos um dos principais sentidos. Tanto que muitas vezes precisamos "ver para crer". Não é ouvir, nem cheirar, nem pegar ou provar... é ver! Estamos bastante acostumados com a visão, tudo à nossa volta, toda percepção, é muito baseada no visual. E esse é um movimento para fora, olhamos para fora, nos preocupamos com o que está no externo, nossos dois olhos nos mostram o externo. Todo nosso ser é moldado pelo externo, com referências que vamos "vendo" ao longo da vida, mas também de nossa percepção mais sensível, de nossa intuição. E é aí que entra a meditação, como ferramenta para treinarmos o olhar para dentro.

Quase nunca olhamos para dentro, mesmo porque nossos olhos são para o externo, então parece difícil fazer esse movimento. O olhar para dentro é uma metáfora para esse movimento de ser conhecer. Focar no terceiro olho é uma metáfora para treinar essa "visão" interna. Quando conseguirmos parar de se debater com o externo, a água acalmar dentro da gente e toda a sujeira (pensamentos, crenças, defesas) baixar, teremos clareza dentro dessa água, poderemos nos conhecer e reconhecer. E então o modo de viver será mais "intuitivo", no sentido de ser mais baseado nessa visão interna do que na externa. Essa intuição, nada mais é do que uma libertação das lentes que nos colocaram. É tirar os óculos (crenças, visão de mundo aprendida) e olhar para a vida com nossos próprios olhos (visão interna), a partir de nossas próprias e legítimas experiências.

Mas ainda assim é desafiador meditar, porque ter entendido esse processo não traz a verdadeira compreensão. Essa, só será realmente assimilada ao longo do treinamento. Só poderemos experienciar e sentir verdadeiramente tudo isso que a mente entendeu das palavras acima conforme sentarmos para meditar, ao longo do tempo. E só esse sentar já será um verdadeiro desafio. Há que se ter coragem e persistência para remover cada um desses véus que nos turvam a vista e abrir passagem para nosso verdadeiro eu.

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